Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Tuamotu - jun/09

Após dias muito agradáveis e sossegados em Tahuata, voltamos a Hiva Oa para despachar a Gretchen para os EUA, ao encontro do Frank e Loki. Coitados... A paz deles estava com os dias contados. E nós, depois de dois meses e meio convivendo a bordo até estranhamos a ausência dos cafés da manhã que ela improvisava: tudo o que tinha sobrado das duas ultimas refeições, frito com alho, óleo e mais umas pitadinhas de pimenta, curry e mel... Valeu Gretinha, muito obrigado pela excelente companhia, volte sempre!

Nossa intenção era zarpar o quanto antes para Manihi, nas Tuamotu para pegar um avião pro Brasil e buscar o Alex. Mas o tempo virou e não valia à pena sair. Enquanto esperávamos uma melhora nas condições chega o Beduína com Hugo, Gislayne e Talita. Chegaram como todos nós chegamos: uma marca de limo bem acima da linha da água. Aliás, aqui dá pra saber quem acabou de chegar só olhando o costado. Depois de semanas navegando todo mundo chega com o costado esverdeado. Mas conversando com eles nos surpreendemos com as condições que eles encontraram na sua travessia, muito diferentes das nossas. Mar mexido e ventão quase o tempo todo - chegaram muito cansados. E a gente teve aquela moleza toda.

Depois de muito papo, troca de livros, informações, jantares, recados e encomendas deixamos Hiva Oa ainda com uma partida de dominó a ser jogada com a Talita, pois queríamos aproveitar o que parecia ser uma boa janela de tempo.

A questão toda é que para se entrar nos atóis em Tuamotu tem que se negociar um passe (uma abertura natural na barreira de corais) à parte interna ou “lagoon” onde as águas são protegidas e oferecem uma ancoragem mais tranqüila. O melhor horário para se utilizar desses passes é o estofo da maré, quando ela não está enchendo nem vazando, um período de uma hora mais ou menos. Óbvio, essa passagem deve ser feita com a luz do dia. De noite, nem pensar. E fora do estofo da maré pode haver muita correnteza, basta uma pequena vacilada para seu barco ir aos corais.

Ou seja, todo mundo tenta entrar nesse período e navega de olho no relógio, querendo chegar na hora certa no passe. Como a navegada entre Marquesas e Tuamotu é de cerca de 500 milhas fica muito difícil programar com precisão a chegada de um veleiro. Mas enfim, tentamos. Depois de vários dias aguardando, saímos na tal “janela”.

Hmmm... A tão aguardada janela de tempo quando abriu foi só para deixar entrar chuva e ventos estranhos! Saímos na maior calmaria e tivemos que motorar para não ir muito devagar. Aí o tempo entortou. No meio da noite, claro, ou melhor, muito escuro. Ficamos só com a vela grande na segunda forra de rizo, na maior chuva, lutando para não ir muito rápido. E tome chuva. E tome rajadas. E tome rondadas de vento. Numa madrugada o vento rondou 90 graus, assim, sem aviso, num estalar de dedos. Se não fosse o preventer, ia ser aquele jibe desastroso. E ironia das ironias, quando estávamos a umas 100 milhas de Manihi o vento zerou de uma vez, só ficou aquele mar chatinho. Tínhamos horário marcado com o passe, não? Adivinhem? Ligamos nosso querido motor novamente e lá vamos nós e nossa malfadada mérdia horária. Cara, que saco!

O que nossa navegada das Galápagos até as Marquesas teve de sossegada essa teve de chata e cansativa. Ficamos mais cansados nesses três dias e tantas horas do que nos vinte e cinco dias da outra. Depois, conversando com outros barcos, descobrimos que todo mundo também sofreu mais nesse trecho do que no anterior.

As emoções na chegada foram as mais fortes: entramos no passe ainda com a maré vazando e fomos contornando os diversos cabeços de coral até a ancoragem. Chegamos lá, jogamos âncora e ainda estávamos com o motor ligado quando uma enorme e ameaçadora nuvem nos alcançou e o pau comeu - chuva na horizontal e ventos de 35 nós. Não dava pra ver nada. Escapamos por pouco. Ficamos imaginando o sufoco que teria sido se aquela chuva nos tivesse apanhado no passe ou navegando entre os corais.

Mais relaxados, resolvemos comemorar e aí aconteceu um terrível acidente. Na fissura de conseguirmos gelo para nossa merecida caipirinha, com a goela seca, olhos vermelhos, e mãos trêmulas um golpe desastrado perfurou a placa fria da geladeira e psshhh, foi-se o gás. Ficamos sem geladeira. Isso, nas Tuamotu. Ou seja, estamos no paraiso, mas sem poder tomar cervejinhas geladas, caipirinhas, etc. Que castigo! Já que íamos ficar sem gelo, rapidamente fizemos e bebemos diversas caipirinhas com o gelo restante. E aí ficou tudo zuuper legalzinho de novo...
Mas chega de desgraça, vamos falar de coisas boas.

Manihi é linda (o?). E pelo que vimos até agora, num estágio de ocupação bastante tolerável. Há um hotel (ancoramos perto, tem internet wifi grátis), uma vila pequena e bem cuidada com provisionamento básico e um lagoon imenso, com diversas fazendas de pérolas. O Fernando, um polinésio muito simpático traz todas as manhãs baguetes quentinhas e crocantes aos barcos.

Fomos a um jantar ao qual ele convidou os cruzeiristas (25 dólares por pessoa) a sua casa. Um monte de comida muito boa. Um grupo tocava musicas típicas e tivemos uma apresentação de dança. Até show com tochas rolou. O ponto alto foi uma apresentação onde nos demonstraram “n” maneiras de se usar/amarrar um pareo. Inacreditável, nunca imaginamos ser possível tantos jeitos diferentes. Pena que já esquecemos quase todos...

O melhor dessa noite foi a autenticidade do negócio todo. Como a coisa era meio improvisada, na casa dele, com a família (tios e avós tocando os instrumentos, sobrinhas dançando e errando alguns passos, sobrinhos fazendo malabarismos com as tochas e deixando cair as vezes) ficou melhor do que se assistíssemos a um show profissional num resort cinco estrelas.

Nessas nos tornamos amigos do Fernando, Joseph e Alma e agora todos os dias eles passam aqui no Pajé para irmos espetar uns peixinhos no passe. Saímos sempre com a maré enchendo, paramos do lado de fora, onde a barreira de coral é um penhasco, muito, muito fundo. A visibilidade costuma ser acima de 20 metros, a gente desce até não agüentar mais pelo paredão e nada de ver o fundo. Uiii que meda. De vez em quando lá longe passa um peixe enorme, mas difícil chegar perto. Muitos tubarões também, sempre de olho no que a gente pesca.

Olha aí, estava falando dos nossos novos amigos e eles acabaram de passar aqui e nos dar um belo pedaço de wahoo que pescaram na linha, já que hoje não vamos mergulhar porque o mar e tempo estão virados. A Paula já estava preocupada com o que ia inventar pro jantar e fomos acudidos pela encantadora hospitalidade polinésia.

Essa é nossa segunda ancoragem dentro do atol de Manihi. Para sairmos da outra ancoragem tive que mergulhar e desenroscar a corrente e âncora do Bicho e depois do Pajé, que estava mais no fundo e deu um bom trabalho. No dia anterior tinha feito o mesmo com outro veleiro americano. Desse jeito vou me especializar e trabalhar pro Fernando desenroscando âncoras. Apesar de estarmos dentro do atol, as ancoragens são fundas, acima dos 12 metros e com cabeços, grandes formações verticais de coral, por todo o lado. Com o vento rondando as correntes vão se enroscando e pra safar só mergulhando mesmo. Haja peito!

Tarde dessas o Fernando, sempre gentil, nos levou conhecer sua fazenda de pérolas. Uma aula. Nos mostrou o passo a passo desse processo meticuloso e interessante - seleção das ostras, escolha da matriz de cores, implantação das esferas e a extração da pérola ao final de 2 anos e meio . As meninas, de quebra, ganharam algumas e já planejam colares e brincos.

Estamos esperando o tempo melhorar para irmos a Fakarava (vou pegar o avião e buscar o Alex para suas férias no Pajé, a saudade tá "inaguentável"), mas começamos a ter dúvidas, já que agora temos Bicho Vermelho e Itusca ancorados ao nosso lado. Dos sete veleiros aqui, três são brasileiros, temos a hospitalidade do Fernando... Estamos em casa.


Domingo, 31 de Maio de 2009

Marquesas - mai/09

A travessia entre as ilhas Galápagos e Marquesas, cerca de 3000 milhas náuticas, costuma fazer parte do imaginário de grande parte dos velejadores. Um dos motivos é por se tratar de uma viagem muito longa, pelo meio do nada e do maior oceano do planeta. Quem busca distancia da terra e da civilização vai ter isso de sobra. Outras viagens e regiões proporcionam essa mesma sensação, mas não oferecem o segundo grande atrativo: as condições benignas. Tempo bom, ventos suaves, mar calmo e piscoso. O terceiro grande atrativo é o destino em si, as maravilhosas e famosas ilhas do Pacífico sul.
E nossa navegada foi um clássico. Exatamente como havíamos lido e esperado. Qual é a graça de tudo correr sem surpresas? Muita! Quando só se esperam coisas muitas boas, o melhor é que tudo saia conforme esperado.

Saímos junto com o Bicho Vermelho e navegamos um a vista do outro por quase 1000 milhas, inacreditável. Esse primeiro terço da viagem foi o único que foi aquém de perfeito. O mar estava desencontrado, com ventos muito variáveis e algumas chuvas.

A seguir tudo se encaixou. Os dourados começaram a freqüentar nossas linhas de pesca, o tempo firmou, o mar arredondou e a vida virou um show. No começo estávamos mais preocupados com nossa singradura diária, e investíamos algum tempo tentando novas regulagens de vela. Aí a ponteira do pau do balão quebrou e desistimos de velejar em asa de pombo (uma vela pra cada lado do barco). Logo depois desistimos da vela grande também, que fazia muito barulho... Assim a genoa virou nosso principal meio de propulsão, e nos dias em que nos sentíamos especialmente ativos usávamos o balão.


Velejar a 4 nós (menos de 8 km/h) virou nosso meio de vida, passatempo e velocidade preferida. Quando entrava uma rajada e acelerávamos a 6 nós eu ficava muito incomodado. Pra que tanta pressa, Pajé? Isso aqui assim tá tão, tão bom, por que ir mais rápido? A noite muitas vezes íamos a 3, 3,5 nós e era aquele sossego. Nunca velejei tanto tempo, tão devagar e gostei tanto. Não quero mais saber desse negócio de 7, 8 nós, médias diárias de 160 milhas. Pra que?

E os dias foram passando lenta e deliciosamente. Um dia a Gretchen perguntou: “Como é que a gente pode ter certeza que o tempo realmente está passando?” Me lembrei da travessia do Atlântico alguns anos atrás, quando o Alex Ufer disse numa daquelas noites enluaradas: ”agora eu entendo porque os índios mediam o tempo pelas luas, é a única coisa que muda”. E era isso mesmo. A única coisa que mudava era o tamanho da lua a cada noite. De resto, tudo igual. O sol nascia e se punha nos mesmos lugares. O mar e céu lindos e azuis todos os dias. As noites!


A Paula, encarregada da navegação, todos os dias anunciava o vencedor do concurso, quando apostávamos quem adivinharia as milhas navegadas nas ultimas 24 horas. No começo da viagem era uma barbada, só eu ganhava. Mas as meninas pegaram o jeito e depois cada dia era um que acertava, e com uma diferença muitas vezes menor que duas milhas de um palpite pro outro. Dureza essa mulherada, vou te falar! Após o anúncio do vencedor do dia vinha a frase preferida da Paula: quase lá.

Grandes momentos também quando fisgávamos um dourado, aquela festa. Invariavelmente uma boa porção do peixe virava sashimi na hora. De vez em quando rolava também um ceviche. Um dia as meninas viram um bando de dourados seguindo o barco, a uns dois, três metros de distancia. Os maiores na frente, os menores atrás. A Paula olhou, escolheu bem e jogou a isca bem em frente do dourado eleito e pimba! Mais um peixe a bordo.

Muitos banhos de mar também. Abaixávamos a escada na popa e íamos a reboque. Abríamos os olhos debaixo da água para vermos casco e leme naquele azulão e depois ficávamos conversando maravilhados a respeito.

Nosso leme de vento, depois de anos descansando e dando despesas funcionou magistralmente. É o máximo de fato. O bichinho fica lá quietinho, indo e vindo sem parar, incansável e competente.

Ah, mas não é possível, foi tudo assim, desse jeito, nenhum problema, nada? Ora, claro que não. Apesar de fantástico o Pajé é um barco, e, como vocês sabem, barco quebra. Faz parte, mano. Mas, além da ponteira do pau do balão (que quebramos por descuido), não tivemos nenhuma quebra de verdade, apenas pequenas manutenções. Tive que mergulhar no paiol de popa para descobrir um barulho diferente no leme. O barulho não era nada, mas foi bom, pois apertei dois parafusos que estavam frouxos no quadrante e poderiam atrapalhar depois. Vai ver o barulho foi o jeito do Pajé avisar sobre os parafusos. Mas podia ter avisado antes, né Pajé? Tirar as tralhas todas do paiol, por mais tranqüila que esteja a navegada, é sempre um saco. Trocamos também uma cupilha no garlindéu (agora falei difícil, hein?) e tínhamos que limpar o filtro e bomba de água doce dia sim, dia não, já que entupiam continuamente. A Paula também deu uns pontinhos no tope do balão que estava descosturando. E por fim, dois fusíveis do recarregador de baterias queimaram. Ou seja, não dá pra reclamar. Obrigadão mais uma vez Pajé!

Chegamos a Hiva Oa depois de 25 dias de sonho. Nossa média foi de 120 milhas diárias. Bem vividas.

Hiva Oa é uma ilha imponente, com penhascos a beira mar e vegetação luxuriante. Não tem como não pensar em Ilha Bela, Ilha Grande e a região de Paraty. Fizemos a papelada, algumas compras de comida fresca e juntos com nossos queridos Bel e Bob viemos a Tahuata, uma ilha muito próxima e linda também.

Adoramos a pequena vila de Vaitahu. Toda arrumadinha e florida. E o ar cheira a frutas: por todo o lado vêem-se limoeiros, coqueiros, mangueiras, abacateiros, bananeiras, pamplemousseiras (perdoem minha ignorância) e outras eiras e eiros mais. Tanta vida que a Gretchen teve uma violenta reação alérgica – possivelmente causada por mangas – e ficou toda inchada. Fomos ao posto de saúde local, fantástico, e após uma injeção e alguns comprimidos ela melhorou.

Sempre voltamos de nossas caminhadas carregados, pois todos nos cumprimentam e muitos nos oferecem frutas. As pessoas são bonitas e sorridentes. Uma menina perguntou pra Bel se o Brasil era mais desenvolvido que essa ilha. Responder o que? Aqui todo mundo tem casa, escola, comida e assistência médica. Não tem crime, poluição, transito e corre-corre. Para os amantes da vida noturna, cultural e afins pode ser um pouco entediante. Essa excelente qualidade de vida só é possível porque a economia local é fortemente subsidiada pelo governo francês. Assim, até eu! A questão toda é a tal da sustentabilidade...

Poucos dias após a ida da Gretchen ao posto médico foi a minha vez: um grande botijão de gás escorregou e caiu sobre minha mão enquanto o Bob e eu recarregávamos nossos pequenos botijões. Já era noite e tivemos que ir chamar o Jean (o responsável pelo posto de saúde, um marquesano de dois metros de altura e gentil como uma moça) em casa. Ele veio meio reclamando e disse que a noite era só para emergências, e que meu problema era “petit”. Mas quando ele examinou minha mão sob a luz do ambulatório rapidamente cuidou do ferimento e me deu uns pontinhos. No dia seguinte voltamos lá com um cd de músicas brasileiras e foi um custo fazê-lo aceitar. A tão alardeada hospitalidade polinésia está viva e muito bem, obrigado.

Mas o tempo passa muito rápido. Já esta quase na hora das férias do sagüi e estamos envolvidos na logística de ir apanhá-lo em São Paulo, trazê-lo e depois levá-lo de volta. Vamos zarpar em breve para as Tuamotu e Tahiti onde os vôos são mais baratos e freqüentes.

O mundo gira e o Pajé navega. Em breve, mais um boletim de algum lugar por aí.


Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Galápagos - abril/2009


O Pajé ganhou uma nova tripulante no Panamá: a Gretchen. Após seis meses de convivência intensa com Frank & Gretchen iríamos nos separar, já que os dois voltariam aos EUA e nós buscávamos o Pacífico. Uma bela noite o Frank disse: ”nós vamos ser os seus line handlers no canal” e eu respondi: por que vcs não aproveitam e vão até a Polinésia com a gente? Papo vai, papo vem ele acabou voltando a Seattle para tomar conta do Loki (o cachorro) e a Gretchen veio com a gente no Pajé. Ficamos muito contentes, pois além de ter virado parte da família e ser excelente companhia, ela nos ajudaria na velejada e turnos nessa longa travessia.

Passamos uma semana na cidade do Panamá finalizando os preparativos e nos mandamos para as Ilhas Las Perlas, um arquipélago bastante próximo. Queríamos descansar antes de iniciarmos a travessia, pois o ultimo mês tinha sido uma pauleira preparando o barco. Estatísticas? Lá vão: 528 latinhas de cerveja, 60 garrafas de rum, 24 garrafas de pastis, 12 garrafas de vinho tinto (estraga fácil), 30 caixas de vinho branco e tinto (tetrapak) e algumas garrafas de champagne. Bom, de essencial foi isso, mas acabamos estocando também: 40 kg de arroz, 20 kg de feijão, 60 kg de farinha de trigo, 20 kg de açúcar, centenas de enlatados como óleo, azeite, condimentos, creme de leite, leite condensado, legumes, frutas em calda, atum, etc. O Pajé recebeu sua cota de 500 litros de diesel, 20 litros de óleo para o motor, 30 filtros e inúmeras outras peças de reposição. Claro que este excessivo provisionamento não foi apenas para a travessia até a Polinésia francesa (só as bebidas alcoólicas...), mas também para termos certa autonomia lá chegando, já que tudo é muito mais caro. A linha d’água do Pajé acusou o golpe e submergiu alguns centímetros. Como isso não pode ficar assim, temos nos esforçado dia e noite para reduzir a carga, bebendo e comendo desvairadamente.

Os dias em Las Perlas foram muito tranqüilos, com caminhadas pelas praias e mergulhos nas águas geladas e coalhadas de águas vivas. Bel e Bob a bordo do Bicho Vermelho nos ajudaram a consumir cervejas e picanhas neste período.

Dia 31 de março Pajé e Bicho levantaram ancora rumo as Galápagos, umas 900 milhas além. Conforme esperado, havia muito pouco vento e tivemos que motorar bastante, quase um terço do caminho. O lado bom é que o mar estava uma piscina, muito, muito tranqüilo. Nunca havia navegado por tanto tempo com o mar tão tranqüilo e o tempo tão bom. Um passeio de fato. E a natureza não economizou: vimos balés e acrobacias de arraias, saltando e dando cambalhotas, golfinhos sempre simpáticos e brincalhões, baleias com seus filhotes e uma lula vermelha enorme! Quando o vento permitia içávamos nossa gennaker que ajudava a colorir ainda mais a paisagem. Mas nada de peixe. Quer dizer, um dia fisgamos um pequeno atum, que devolvi pro mar. Mas tive que agüentar o bico da Gretchen que já estava pensando no sashimi...

Como sempre nas travessias a cozinha foi um sucesso, com as meninas apresentando pratos maravilhosos. Rolou até Crepe Suzette, flambado e tudo! Pra mim sobrava de trabalho apenas a louça no café da manhã. Turnos de 3 horas, iniciados após uma sessão de cinema no cockpit. Às vezes com pipoca, outras com vinho. Lemos muito também. Ilíada, Odisséia e Hornblower entre outros. Paula e Gretchen trocavam aulas de português e inglês. Um dos livros “didáticos” é um livro de receitas...

Certa noite somos acordados pela Gretchen e do convés contemplamos um espetáculo de luz. Estávamos numa área onde o mar apresentava uma tremenda luminosidade. As ondas brilhavam e cada borrifo criado pela passagem do Pajé iluminava a vela grande. Já estávamos acostumados à longa esteira brilhante do Pajé, mas isso superou tudo que já havíamos visto.

Quer dizer, só não superou a passagem pela linha do Equador. Reza a tradição que todos ao cruzarem esta linha pela 1ª vez têm que ser aceitos por Netuno. Na cerimônia da Gretchen este Deus dos mares esteve particularmente benevolente e permitiu sua passagem sem exigir maiores sacrifícios. Ela só pagou um mico ao ter que solenemente implorar clemência, saltar sobre a linha imaginária e dançar uma sensual musica pagã, vestida a caráter. Convenhamos, é pouco para contentar um Deus tão poderoso (pessoalmente sou mais chegado numa imolação), mas como não tínhamos nenhuma virgem a bordo ficou por isso mesmo.


Depois de 8 pacíficos dias chegamos a San Cristobal com o nascer do sol. O Bicho havia chegado um dia antes e ancorado ao lado do Itusca. À noite fomos todos a um restaurante e conhecemos o Carlão, James e Morongo que estavam no Itusca com o Diogo e Flavio.
A turma no Itusca era do surf e aproveitou a parada em Galápagos para fotos e filmes para a Mormaii, conhecida marca no mundo das ondas. Assim, todo o dia tinha sessão de surf. O véio aqui se empolgou. Tirei as teias de aranha da prancha e me aventurei com a galera. Mas não deu em nada, estou completamente enferrujado e as condições de Tongo reef e Loberia, com fundos de pedras e drops rápidos exigiam mais do que eu podia dar. Mas foi uma delícia assim mesmo. Remar, estar em meio às ondas e bons amigos mais do que valeu. Aproveitei de tabela, vendo a rapaziada com o surf no pé, mandando muito bem. O James, fotógrafo, clicou as sessões e muito gentilmente nos permitiu colocar algumas fotos aqui para registrar a maravilha que é o pico.
Foto: James Thisted
Foto: James Thisted
Foto: James Thisted
Foto: James Thisted

Foto: James Thisted
Foto: James Thisted


A Paula, a pedidos, fez mais uma de suas estupendas moquecas e tivemos uma noite e tanto a bordo do Itusca. Presenteamos o Morongo com uma roupa de borracha da Mormaii, minha primeira, ainda em excelente estado e que eu guardava há quase trinta anos. Pelo jeito, vai para o museu da Mormaii em Garopaba.
Foto: James Thisted

Fizemos todos juntos um passeio/mergulho e vivemos momentos incríveis nadando e brincando com os filhotes de lobo marinho. Alucinante! Os bichinhos são as maiores figuras, nadam muito perto, olham no olho, fazem acrobacias, te acompanham, vem nadando na maior velocidade na direção do seu rosto e só desviam na ultima hora, depois que têm certeza que te assustaram. A Paula até tomou um empurrão de um mais afoito. San Cristobal é conhecida como a ilha dos lobos marinhos. Eles dominam o lugar. Ficam pelas calçadas, sobem nos bancos das praças, nos veleiros (se não fechar o barco, eles entram) e nos botes. Um se apegou ao bote do Bicho e o Bob até o levou pra dar um passeio com a Paula e Gretchen. Pena que o Ali não está aqui, ele iria pirar.



Foto: James Thisted


A natureza aqui é de pirar qualquer um. Darwin inclusive. Segundo ele próprio, sua teoria da evolução das espécies foi inspirada pelas Galápagos. Um arquipélago de origem vulcânica, com algumas ilhas extremamente jovens - menos de um milhão de anos, vejam só - localizado na confluência de diversas correntes marinhas frias e quentes e a mais de 600 milhas do continente. Essa combinação resultou numa variedade de flora e fauna inigualável. Espécies tipicamente tropicais convivem com espécies típicas de águas frias e sabe-se lá por que (quer dizer, alguém deve saber, eu é que não sei) em algumas ilhas alguns pássaros têm patas azuis, em outras patas vermelhas, e em outras nem voar voam, em algumas os iguanas se alimentam debaixo d’água, em outras nas crateras dos vulcões. As flores endêmicas são todas amarelas porque as abelhas daqui só gostam dessa cor. Sei lá, mil coisas...



Foto: James Thisted

Foto: James Thisted

Foto: James Thisted

Foto: James Thisted

Foto: James Thisted

Enfim, o lugar é um desbunde para biólogos e estudiosos em geral. Para o ignorante resto de nós é um lugar exótico e de difícil acesso. Gostaríamos de ter visto mais da tão alardeada riqueza natural dessas ilhas, mas não conseguimos. A necessária proteção a natureza combinada a necessidade de gerar receitas através do turismo criou um situação peculiar e desinteressante sob nosso ponto de vista. Não se pode ir a praticamente nenhum lugar sem o uso das empresas credenciadas locais. Para se ir com essas empresas credenciadas paga-se os olhos da cara e se vê apenas algumas partes previamente designadas. Sem o uso dessas empresas então, sobram alguns poucos lugares e pequenos parques/institutos onde se vêem apenas algumas tartarugas cativas. Exceção feita aos incríveis lobos marinhos de San Cristobal, que de fato são o máximo, autênticos e estão com tudo.




Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Canal do Panamá - março/2009

Chegando a marina Shelter Bay reencontramos nossos grandes amigos Marcelo e Maura do Gardian, Bob e Bel do Bicho Vermelho, Valdo e Cláudia do Jasmim e poucos dias depois chegam o Hugo, Gy e Talita do Beduína, Bruno, Lu e Bernardo do Caribee e Diogo e Flávio do Itusca. Assim, com o Pajé somamos 7 veleiros brasileiros. Não tenho certeza, mas deve ser um recorde de brasileiros em Colon! Como era de se esperar a vida social ficou intensa, com muitos churrascos, jantares e confraternizações. Alguns preparando-se para atravessar o canal e outros para ficar pelo Atlantico. Muito divertido e instrutivo. Todos se ajudam. O Marcelo nos deu uma super ajuda com nosso guincho e carregador de baterias. O Diogo e o Flávio ajudaram a todos com os laptops e softwares. A Paula ensinou às meninas a receita do seu já famoso cheesecake. A Bel nos ensinou a fazer conservas e a Maura nos deu os potes que não conseguíamos achar por aqui. A Lu, sempre brincalhona e a disposição para ajudar. O Bob tomava conta da grelha nos diversos churrascos. Uma das raras exceções por aqui sou eu, que incompetente e preguiçoso não tenho muita utilidade pra ninguém... Paciência, fico aqui escrevendo bobagem.


Os preparativos são febris e é curioso observar: durante o dia ninguém se vê muito, apenas para a ocasional ida a um barco ou outro para pedir ou perguntar alguma coisa ou para ajudar numa tarefa mais complexa. Ou no meu caso, ir encher a paciência dos amigos com gracinhas fora de hora. Alguns se agrupam para expedições aos supermercados, lojas, oficinas, autoridades panamenhas e afins. Por conta disso Bob e eu tivemos longos e românticos passeios agarradinhos na moto dele. Mais pro finalzinho do dia começam as articulações sociais: bebidinhas no barco de um, jantar no barco do outro, churrasco no gramado, troca de mazelas e soluções. Um barato. Provisões, manutenção (rádio VHF, motor do guincho, carregador de baterias, filtros, etc. etc. etc.), cartas náuticas, guias, embaixadas, medições para o canal, peças de reposição. Acaba se tornando um ciclo: fases de muita curtição são seguidas por fases de muito trabalho que nos preparam para a próxima fase de muita curtição.
E o melhor, sempre, são as amizades que vão surgindo e se fortalecendo. Definitivamente as coisas acontecem de uma maneira diferente de quando estamos nas cidades. Alguém pode estar completamente atolado de coisas pra fazer, no meio de uma tarefa fundamental e não hesita em parar tudo e ir lá ajudar o outro que também está num apuro. O que você faz ou fez para ganhar dinheiro (e o quanto ganhou) não faz a mínima diferença. As pessoas se gostam por que se gostam e pronto! Entre os mais queridos estão aqueles sempre disponíveis para ajudar e com um sorriso no rosto. Obviamente nessa vida também se encontra gente com quem o santo não bate, mas é bem mais simples se manter afastado delas: basta ancorar em outro lugar.

Nossos objetivos nessa parada em Colon eram o transito do Canal do Panamá e os preparativos para a travessia do Oceano Pacífico, quando deveremos navegar algo em torno 900 milhas até as Galápagos e depois mais umas 3000 milhas até as Marquesas, ou seja, 20 e poucos dias sem avistar terra. E olha, dá pra dizer que se gasta pelo menos um dia de preparação para cada dia de navegação...

A marina foi esvaziando: Caribee e Jasmim rumaram para Belize e depois EUA. Itusca e Beduína cruzaram o canal. Muitas despedidas e choramingos. Aquela vontade de conviver mais com os novos amigos. Pajé ficou pronto e também veio pro Pacífico. Maura e Marcelo soltaram nossas amarras, todo mundo com os olhos marejados. Gardian no dia seguinte partiu rumo a Cartagena e Curacao. Bicho seria o último a deixar a marina, apagar as luzes e rumar ao Pacífico.


O canal do Panamá é uma daquelas obras que vale a pena. Desde o remoto ano de 1534 os espanhóis já sonhavam com a possibilidade, mas 3 séculos se passaram até que em 1879 os franceses, confiantes com o sucesso do canal de Suez , concluíssem um acordo com o governo da Colombia para a construção do canal. 20 anos e 20 mil vidas perdidas depois a empreitada fracassou perante as doenças e dificuldades técnicas. Alguns anos se passaram e o governo dos EUA comprou os direitos sobre o canal e iniciou-se uma discussão com o governo da Colombia sobre taxas e comissões... Em 1903, veja só, o estado do Panamá declara independência da Colombia e é prontamente reconhecido adivinhem por quem? Assim, com o esforço de mais de 75 mil pessoas e 10 anos de trabalho foi construído o canal. O controle da febre amarela e malária foram fundamentais para o sucesso da obra. O canal iniciou suas operações em 1914 e já foram realizados mais de 850 mil trânsitos desde então. A partir do ano 2000 o canal passou ao controle do governo panamenho e continua em obras de expansão. Basicamente o canal é formado por 3 eclusas de cada lado, que elevam os barcos cerca de 26 metros até a altura do lago Gatún (criado pelo represamento do rio Chagres), onde se navega por 20 e poucas milhas até as eclusas do outro lado. Muitos pensam que os oceanos têm alturas diferentes, mas isso não ocorre. As eventuais diferenças de altura dos níveis são causadas pelas marés, muito mais intensas do lado Pacífico aonde chegam a 5 metros de variação. As eclusas servem para elevar os barcos ao nível do lago Gatún e trazê-los de volta ao nível do mar. São construções enormes, com mais de 30 metros de largura e 300 de comprimento, cada uma elevando ou baixando as embarcações por mais de 8 metros.
O transito do canal inicia-se com a ida ao escritório administrativo e agendamento da medição. Em seguida um medidor inspeciona o barco e preenche um questionário com informações gerais como velocidade máxima, autonomia e outras. Calcula-se a taxa (no caso do Pajé US$ 609), paga-se e depois, por telefone, agenda-se a data (no nosso caso, sexta feira, 13, porque gostamos de viver perigosamente). Tudo muito simples e eficiente. Para a travessia são necessários 4 cabos de no mínimo 40 metros de comprimento e 4 “line handlers”, as pessoas que operam os cabos dentro das comportas. Além disso, os veleiros se enchem de pneus velhos de ambos os lados para proteção contra qualquer manobra desastrada.
A Paula e eu fizemos o transito como line handlers do Kalida alguns dias antes pra ganhar alguma experiência e valeu à pena, na nossa vez estávamos quase calmos. Digo quase por que de fato é uma experiência impressionante. É tudo gigantesco e você se sente bem pequenininho amarrado a outros 2 veleiros no meio daqueles paredões. Em geral os veleiros transitam acompanhados de navios, mas demos sorte e fizemos todas as eclusas somente com os outros 2 veleiros. Tudo muito tranqüilo e seguro. Pouco antes de se entrar nas comportas os veleiros se amarram uns aos outros e o barco do meio é que usa seu motor para tocar a “jangadona” pra frente. Os barcos nas laterais mantêm seus motores ligados o tempo todo e eventualmente ajudam numa ou outra correção de rumo. Ao se entrar no canal de acesso são lançados 4 cabos guia, dois para cada um dos veleiros nas laterais. Esse é um dos momentos chave, ficam todos ligados para apanhar os cabos direitinho e não dar nenhum vexame. A Paula, pra variar, pegou dois cabos ainda no ar e foi aquela farra, todo mundo assoviando e aplaudindo nossa marinheira esperta. Os guias são amarrados nos grossos cabos de 40 metros de comprimento e devolvidos a terra. Quando os barcos estão posicionados e amarrados as comportas se fecham e começam a encher. Esse é o momento de maior emoção: os barcos vão subindo rapidamente (oito metros em 10 a 15 minutos) e os line handlers vão mantendo os cabos esticados para ninguém bater nos paredões. A água fica bastante turbulenta e os cabos trabalham bem. Os line handlers do Pajé (Bob e Bel, Paula e Frank) foram impecáveis. Um dos barcos perdeu um dos cabos, mas sem maiores conseqüências, conseguiram recuperar a tempo e deu tudo certo. Chegamos ao lago Gatun quase meia noite, amarramos o Pajé a uma bóia, celebramos o sucesso do primeiro trecho e dormimos exaustos. No dia seguinte caímos na água bem cedinho, para um banho na refrescante água doce do lago. Alguns não entraram na água, não sei se por medo da água fria ou dos jacarés... A navegada até as comportas do Pacífico foi muito tranqüila, estávamos com tempo de sobra e o dia lindo. O Ricardo, nosso prático era muito simpático e a Paula foi abarrotando todo mundo de comida. A descida também foi sem sustos, apesar do veleiro do outro lado ter ficado sem motor. Imagino a aflição do cara. A emoção maior foi por conta da webcam e da gente agitando a bandeira brasileira para as famílias assistindo em casa. O Frank abriu a champagne que havia trazido e iniciamos os brindes.


-Flamenco signal, Flamenco signal, sailing yacht Pajé.
-Sailing yacht Pajé, this is Flamenco signal.
- We just finished the canal transit and request permission to proceed to La Playta anchorage.
-OK, please clear channel as soon as possible.
-OK, thanks.
E, olha só, Pajé no Pacífico!

A mãe do mel em Kuna Yala… uma segunda versão - fevereiro/2008

Como o Mario perde o amigo, perde a mulher, perde a sogra (isso até que ele gosta), mas não perde a piada, digamos que a versão sobre a viagem da dona Iraci não é de todo verdadeira.

Como filha tenho a obrigação de esclarecer os fatos.


A viagem da nossa adorável baixinha quase Kuna começou bem antes de pisar no avião. Saudade de quem não se encontra há mais de um ano e o friozinho na barriga da primeira viagem sozinha, fez com que o coração da pequena batesse mais rápido. Quem sofreu foram as funcionárias da Copa Airlines, pra quem dona Iraci telefonava a cada 5 minutos... "só pra tirar mais uma duvidazinha".


Mas o dia D chegou e lá estava eu no aeroporto de Panamá City esperando a mami. Nó na garganta, muita emoção e nenhuma surpresa... dona Iraci já era amiga íntima de meio avião. E super marinheira, trouxe uma bagagem bem pequenininha e acertou na mosca em todas as nossas infinitas encomendas: armas de mergulho, arpões, DVD, leite de coco, cachaça, azeite de dendê... itens essenciais para um brasileiro sobreviver longe de casa.


Na cidade grande tivemos uma vida corrida, compras de supermercado (já que as opções em Kuna Yala são bem restritas), visita ao Canal do Panamá e a ansiedade pela lista de espera para o vôo Panamá/Corazon de Jesus que nos traria as águas claras de San Blas.

Chegamos num dia ensolarado e com a companhia de todos os santos que dona Iraci evocou durante o vôo do minúsculo avião. Verdade seja dita, a bichinha esqueceu mesmo a mala de mão e foi uma epopéia resgatá-la.

Kuna Yala nos esperava e partimos para nossa primeira ancoragem em território Kuna – Holandes Cays, onde logo apresentamos nossos cantinhos preferidos – swimming pool e Barbecue Island , Banedup e Caobos Cay. Dona Iraci teve sua primeira aula de mergulho e de cara já foi apresentada a uma barracuda, gastou seu espanhol e desfilou sua coleção de biquínis (afinal, eu tenho a quem puxar!).


Nos divertimos muito curtindo um solzinho durante o dia, nos jantares com Gretchen, Frank e Loki (a paixão da dona Iraci), organizando juntas a festa de aniversário do Ali. Duro mesmo era segurar as "duas" crianças que tínhamos a bordo... Ali correndo de um lado, dona Iraci do outro e ambos se comunicando pelo walkie-talkie de brinquedo... Eraci, Eraci, aqui é Alex câmbio! OK Alex, Iraci na escuta!

Mas as aulas já estavam pra começar e nosso amado burugunduzinho foi embora, deixando pra trás um barco bem mais vazio e sem graça. Dona Iraci foi minha fiel escudeira durante a semana que estivemos sozinhas. Com minha tripulante de plantão fomos a Green Island, continuamos nossa rotina de praia de águas cristalinas, dona Iraci se esbaldou com as descobertas dos vários tipos de conchinhas e seres marinhos, pescamos com escorredor de macarrão (tentamos, pelo menos) e ganhamos um delicioso jantar com sushis e sashimis dos sempre presentes amigos do Infinity. Super parceira, mami era minha companhia constante na atividade de subir e descer o bote, nas inúmeras partidas de tranca e na sessão de cinema de Prison Break.



E como tudo o que é bom pode ficar melhor, super Mario voltou, aproveitamos o vento perfeito de Green Island pra colocar a velejada de kite em dia. Mario treinando seus saltos e eu comemorando meu primeiro toe side.


Seguimos então para Coco Bandero e dona Iraci confirmou seu voto de praia mais bonita de Kuna Yala. Demos um giro pelas ilhas, tiramos milhares de fotos e a baixinha enfim realizou seu mergulho de batismo. Filhota de um lado, genro de outro e lá se foi a corajosa Iraci. Parabéns mãezinha!



Foram pouco mais de 20 dias deliciosos, dona Iraci nos cobriu de presentes e carinho. Mas infelizmente o tempo voa e logo seguimos para Narganá, sinal de que as férias da mami estavam por terminar. Abraço apertado, silêncio que diz tudo e um último aceno enquanto o pequeno avião decolava.

Obrigada mãezinha, te amo e nos vemos em breve.

Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Kuna Yala - dezembro/2008 a fevereiro/2009

Nossos últimos três meses foram os melhores que tivemos até agora. Tão bons e agitados que nem conseguimos atualizar o blog (a falta de acesso a internet também contribuiu, claro). Mas voltando a dezembro de 2008, enquanto aguardávamos a chegada do guri e Cia fizemos um rápido reconhecimento das ilhas mais conhecidas na parte oeste de Kuna Yala e aprendemos um pouco mais sobre a cultura local.
Também conhecido como San Blas, este nome não é usado pelos índios Kunas por ter sido dado pelos invasores espanhóis. Um lugar único pela beleza natural e a capacidade da civilização Kuna ter conseguido se manter bastante preservada. O território Kuna é autônomo e administrado pelos índios. Assim, aqui a terra não é dividida em propriedades individuais, não há muros e cercas. Não Kunas são proibidos de se estabelecer aqui, adquirir propriedades, investir e casar-se com Kunas. As vilas geralmente têm três chefes, os Sailas. As pessoas reúnem-se tipicamente as noites em uma grande cabana, o “congreso” onde as situações são discutidas, histórias são contadas, músicas são cantadas e a cultura comum reforçada. O território Kuna como um todo é governado por três Caciques, cada um representando sua parte do território. Um deles é o chefe supremo da nação Kuna.
A economia é baseada principalmente na cultura de coco. Por isso, pegar um coco aqui, mesmo caído, é ofensa grave. A venda de molas, bonito artesanato, e a pesca também fazem parte da receita das famílias. O meio ambiente é tratado com extremo zelo, nenhum tipo de mineração é permitido. Além dos cocos, pesca e molas, o turismo passa a ter uma participação crescente na economia Kuna. Em determinadas ilhas paga-se cinco dólares pelo direito de ancorar. Alguns Kunas cobram um dólar para se deixar fotografar. Diversos Kunas saem para estudar e voltam obviamente influenciados. Vimos alguns empreendedores com seus pequenos negócios levar turistas em excursões de canoas, hospedá-los, etc. Como aqui só se chega por mar ou de mini-avião em pequenas pistas mal feitas, o turismo e turista típicos ainda não são encontrados.
A sociedade Kuna é matriarcal, a mulher controla o dinheiro e quando se casam o marido muda para a residência da mulher. Notamos uma grande quantidade de homens Kunas efeminados, fazendo e vendendo molas. Há também um grande numero de albinos, provavelmente resultado de não se casarem fora de sua comunidade.
Todo dia encosta alguma canoa tentando vender molas, lagostas, ovos, pão ou simplesmente pedir anzóis, doces e enfeites. São todos muitos sorridentes e simpáticos. Achamos até que são assim por não terem sido dominados, oprimidos e privados de suas tradições. Não se vê aquele rancor contra os estrangeiros/turistas tão presente em outros lugares.
Outra coisa que também leva a reflexão é como os Kunas vivem: em palhoças, sem móveis, sem água encanada, sem luz elétrica, piso de terra batida. Os banheiros são “casinhas” construídas sobre palafitas. Ou seja, vivem em condições que costumamos associar a pobreza e subdesenvolvimento. Na tentativa de manter sua cultura intacta os Kunas também tem se mantido distantes de uma série de confortos e problemas que vem geralmente atrelados a sociedade e ao sistema econômico aos quais estamos habituados.

E tudo isso já causa situações insólitas, como o dia que fomos abordados por Kunas em sua canoa. Depois de um tempo numa conversa sem pé nem cabeça onde ninguém se entendia eles começaram a falar “celular”. Pensamos que queriam usar nosso telefone e tentamos explicar que não tínhamos. Aí um deles sacou um celular e um carregador. Finalmente entendemos que estavam nos pedindo para recarregar o aparelho. Saltos tecnológicos. O sujeito tem celular e não tem energia elétrica para recarregar. Como prosseguirá a adaptação de Kuna Yala a esse nosso mundinho de que reclamamos tanto? A felicidade estará na eletricidade?

Como pelas ilhas achar provisões não é fácil, fomos a Puerto Lindo, umas 40 milhas a oeste, para completarmos a despensa que estava nas últimas. Um mar enorme, balançamos muito. De lá dividimos um táxi com o Milo One e fomos ao supermercado em Colon.

De volta ao arquipélago reencontramos em Green Island o Bicho Vermelho com Bel e Bob e o Infinity com Frank e Gretchen. Reencontro devidamente comemorado com uma super moqueca de lagosta, caranguejo, lulas e camarão. Passamos bons dias velejando de kite.

E numa bela manhã chegam Alex, Pil, Ricardo, Allan e Belle, nossa nova tripulação para as festas de fim de
ano. Vieram carregadíssimos de encomendas, presentes e provisões.
Como primeira parada fomos a Coco Bandero, um conjunto de ilhas onde estão as mais belas praias daqui em nossa opinião. De lá iniciamos um delicioso passeio pelas nossas outras ilhas preferidas. Visitamos um naufrágio e a molecada se divertiu mergulhando entre os escombros, com destaque para a Belle que não se cansava de atravessar um túnel submerso e também foi a campeã de plantar bananeira dentro d’água.













Dia 22 de dezembro de 2008 ficará registrado na historia Kuna como a data de um dos maiores e mais animados eventos festivos realizados num veleiro. O aniversário da Almiranta Paula foi concorridíssimo. A popa do Pajé ficou pequena para tantos botes que ali buscavam atracar. Champagne, vinho, cachaça, cerveja, pastis, bolos, brigadeiros e tortas misturavam-se as três ou quatro línguas faladas no cockpit. Pois é, Dona Paula é prestigiadésima na comunidade cruzeirística... E este dia já tinha se iniciado com muitos balões, presentes e todo mundo amontoado na cabine de proa cantando parabéns pra você. Muitas felicidades meu amor, você merece!

Nossos dias com a turma toda adquiriram uma certa rotina: Ricardo passava longas horas com os olhos cerrados, em profunda reflexão no convés do Pajé. Nos intervalos, valente, se encarregava de lavar a montanha de pratos gerada pós alimentação dos sempre famintos jovens. Pil e Paula coordenavam a bagunça da melhor maneira possível, e posso assegurar que não foi uma tarefa fácil, o Ricardo dá muito trabalho. Eu ganhei dois excelentes assistentes de mergulho. Todas as vezes que caia na água era acompanhado pelos meus fiéis escudeiros. Quer dizer, o Ali às vezes preferia ficar num joguinho no barco ou fazendo qualquer outro tipo de bagunça, mas o Allan (vulgo boca nervosa) me seguia incansavelmente enquanto mergulhávamos por horas buscando peixes e lagostas para alimentar a tripulação. Demos muita sorte, sempre voltávamos com peixe. Em Holandes Cays ancoramos muito próximos a uns corais e descobrimos que o local estava lotado de pargos rojos, o melhor peixe daqui, tão cobiçado quanto a garoupa. Fizemos a festa. Muitos peixes grandes e deliciosos, divididos com nossos amigos do Milo-One, Bicho e Infinity. O Allan adorou a brincadeira.


O Natal e ano novo foram comemorados nesse ritmo, com os dias lotados de atividades e brincadeiras, muitos jogos no cassino de bordo, a cozinha trabalhando ininterruptamente, um céu maravilhoso, a água cristalina, vento gostoso, noites estreladas, papos tranqüilos. Em Morbedup ancoramos com as popas dos barcos bem perto da praia, amarradas as arvores. Para ir à praia bastava um pulinho. Um super churrasco no dia 25 reuniu na praia Pajé, Infinity, Bicho e Milo. O Bob fez bonito comandando a grelha.
A garotada se comportou muito bem e acreditamos que coletaram muito material para a redação sobre as férias... Mas o Ricardo estava esgotado de tanto lavar pratos e por tanta reflexão na sombrinha do convés. Antes que tivesse uma estafa terminal resolveram voltar a São Paulo. Nos deixaram com os corações e a despensa vazios! Como sempre, passou muito rápido, mas foi muito legal. Pelo menos o sagüi ficou conosco, e com ele a agitação continuou.




As velejadas de kite cederam espaço para o mergulho. Como estávamos dando sorte cada dia passávamos mais tempo dentro da água. O Frank e a Gretchen converteram-se e todos os dias lá íamos nós em busca de comida. O Loki, cachorro deles, adora peixe e come quatro vezes ao dia... Por várias vezes passei mais de 6 horas mergulhando. Mas o esforço era muito bem recompensado: apanhei uma garoupa imensa, uma vaca, melhor dizendo, tão grande que era. Mais de um metro de comprimento, uns 80 e tantos cm de circunferência! Achamos que devia pesar mais de 25 kg. Era mais pesada que o Ali com certeza. Apesar de eu ter ficado com a consciência ecologicamente pesada, a tal garoupa alimentou vários barcos por vários dias. E como alimentou bem. Descobrimos que sashimi de garoupa é uma delícia. Também aperfeiçoamos nossa técnica de arpoar lulas: como estávamos em quatro ou cinco pessoas mergulhando nos divertíamos cercando os cardumes e garantindo nossos macarrões com calamares. A Paula está mergulhando cada vez melhor, entra nas tocas, traz seus peixes e descobre lagostas como ninguém.
O Ali foi uma grande companhia como sempre. Apesar de não termos convivido com muitos outros barcos com crianças nesse período, ele se divertia muito quando isto acontecia e segurava a onda quando só tinha adultos para brincar. E valente como sempre não se intimidou com as arraias e barracudas enormes e, vejam só, adorou ficar mergulhando próximo aos tubarões daqui.
Os “nurse sharks”, como são chamados os tubarões lixa por aqui, são muito tranqüilos, nadam vagarosamente ou ficam deitados no fundo, muitas vezes com a cabeça dentro dos corais. Como os víamos todos os dias, o tempo todo, nos acostumamos a eles e continuávamos mergulhando e pescando sem dar muita bola. Até que um dia tomei uma corrida de um com uns dois metros de comprimento. Havia arpoado uma barracuda grande e ela disparou com o arpão para o fundo. Enquanto eu puxava pela linha apareceu este tubarão e avançou no peixe. Acelerei o recolhimento da linha e coloquei as nadadeiras em quinta marcha, nadando de costas a toda velocidade de volta pro bote. O tuba deve ter pensado que eu era um peixe maior e veio com tudo na minha direção... Imaginem... Parei de nadar e apontei a arma na direção dele (sem arpão) e quando ele estava a menos de dois metros mudou de idéia e voltou pra barracuda. Aí eu puxei a linha de novo, ele não conseguiu abocanhar o peixe e a esta altura eu já tinha saltado para dentro do bote que nem aqueles pingüins saltam da água para cima das geleiras! Recolhemos a barracuda sem nenhuma mordida. Depois disso o Alex, sempre em busca de aventura, ficava me pedindo: papa, vamos lá mergulhar de novo pro tubarão vir atrás de você... É mole?!
Alguns dias depois o Frank viveu uma situação semelhante, só que dessa vez o tubarão ficou com a barracuda. Depois desses incidentes começamos a ficar mais espertos e atentos com os tubarões e procurávamos mergulhar mais próximos uns aos outros do que de costume. Com o tempo descobrimos vários pesqueiros e os apelidamos: Pajé´s reef, onde ficávamos ancorados e pescávamos os pargos e garoupas; barracuda´s reef, onde sempre havia dezenas de barracudas e os tubaladrões; snapper´s alley, um local próximo a barreira de corais onde sempre havia pargos; ghost grouper rock, um cabeço de coral enorme onde uma garoupa gigante era avistada (eu nunca vi a tal garoupa), mas ninguém conseguia pegar. Também mergulhamos algumas vezes à noite e pegamos muitos caranguejos. O máximo, enfim!

O vento ia e vinha e o mar jogava suas grandes ondas entre as ilhas, fazendo muito barulho e espuma nas barreiras de corais. Ancorados atrás dos corais, curtíamos as águas transparentes e o mar calminho. Lavamos roupas nas minas de água, cortamos cabelo na plataforma de popa, brincamos na praia, visitamos os Kunas, fizemos fogueira, piquenique e demos muitas gargalhadas com os amigos. Tudo estava muito, muito perfeito, e como todos sabemos tudo que é bom dura pouco: num dia chuvoso chega ninguém mais, ninguém menos que a mãe do mel, D. Iraci. A Paula foi encontrá-la em Panama City e aproveitou para comprar comida.

Mesmo viajando acompanhada a sogra conseguiu arrumar confusão: esqueceu sua mala de mão no avião, justo a que continha os remédios. Foi uma epopéia recuperar a tal mala, que passou por mais de 5 barcos e demorou uns 10 dias para voltar ao Pajé, com praticamente toda a comunidade dos velejadores envolvida e trocando mensagens diárias pelo rádio. Quando recuperamos a mala, ficou óbvio o interesse da SucurIraci: os cigarros estavam lá!

Nesse meio tempo acabaram-se as férias do alemão e voltei com ele ao Brasil. Mas antes comemoramos seu sétimo aniversario com uma festa no Pajé e depois só nos dois passeando em Panama City com direito a McDonald´s, sorvetes e muito desenho animado. Chegando a São Paulo foi emocionante acompanhá-lo no seu primeiro dia de escola “de verdade”. Meu avião de volta ao Panamá partia em seguida, então me despedi dele na escola mesmo, com o coração em frangalhos. Chorei de soluçar ao sair da sala de aula. Muita tristeza e saudade, faz tanta falta meu super-herói.
E voltar ao Pajé e encontrar a sogra por lá, então? O que é que eu fiz de errado? Pelo menos tinha uma vantagem, ela ajudava a lavar os pratos, tarefa que eu desempenho normalmente. Mas também confesso que ficava admirando por horas aquele corpinho miúdo e tentador, e ficava arrepiado cada vez que ela me lançava um de seus olhares maliciosos e insinuantes. Tanto fez que tive que acompanhá-la em seu primeiro mergulho, obvio subterfúgio para que ela pudesse me agarrar e colar seu corpo ao meu enquanto flutuávamos nas águas mornas e cristalinas. Mas como a água era muita cristalina e a Paula, desconfiada, nos acompanhava de perto não pudemos –ainda- dar vazão aos nossos desejos. Assim os dias passaram-se e também foi embora a Pixogra, para alívio geral. Brincadeirinha... Claro que também ficamos tristonhos com a sua ausência. Ela já havia sido iniciada na tranca, no Uno, indian poker e adorava a jogatina. Arrasou no espanhol e sentiu-se muito a vontade entre os Kunas, que também são todos bem baixinhos.
Quase no finalzinho reencontramos o Valdo e a Claudia do Jasmim e conhecemos Bruno, Lu e Bernardo no Caribee, mais brasileiros levando nossa bandeira por aí. Até o Ubatuba com o Alexandre, Iris, Andre e Amanda apareceram e conseguimos fazer uns mergulhinhos juntos.
Ficamos pouco mais de três meses nessas ilhas maravilhosas e encontramos todas aquelas coisas que sonhávamos ao iniciar a viagem: beleza exuberante, excelente mergulho, excelente velejo, povo amistoso, bons amigos, a visita da família, poucas despesas.

Mas viajando de veleiro temos que respeitar as estações, e com a travessia do Oceano Pacífico como próximo passo tivemos que deixar esse paraíso e rumar para Colon. Nossa velejada até Colon foi bem animada, com ventos acima dos 25 nós e um bom mar pela popa. Mas chegamos sem problemas e ainda pegamos um belo jacaré na entrada do porto que nos fez cruzar o molhe surfando a 10 nós. Atracamos na Shelter Bay Marina, a menos de 5 milhas do Canal do Panamá. A partir de então a rotina virou manutenção, preparação, provisionamento, limpeza, papeladas, etc. Aguardem para muito breve as lorotas que contaremos sobre esse período.

Sábado, 6 de Dezembro de 2008

Cartagena / Kuna Yala - novembro/2008


Nossa deliciosa temporada bogotana infelizmente chegou ao fim, e com ela os paparicos de Dna Nina e Don Claudio, os vinhos, as acirradas partidas de tranca, os longos banhos de água quente, cama com cobertor elétrico (como faz frio em Bogotá!), TV a cabo com controle remoto, freezer, máquina de lavar, internet, restaurantes (e em casa as receitas especiais do Claudio), bons papos. Não vamos ter saudades do transito de Bogotá, sempre congestionado. Mas adorei ser chamado de Don Mario e ficamos impressionados com os confortos que a vida urbana oferece. É muita moleza, já tínhamos até esquecido. Com todos os carinhos e cuidados que só as mães sabem dar então foi um arraso, fomos inimaginavelmente mimados. Saímos já com muitas saudades e com alguns quilos a mais em nossos preguiçosos corpinhos.

Voltamos a Cartagena um pouco atrasados para preparar o barco e receber Bernard e Teresa, amigos que viriam do Brasil para fazer conosco o trecho até Kuna Yala/San Blas no Panamá.

Depois do frio de Bogotá o calor de Cartagena parecia ainda mais infernal. Se preparar o barco para uma viagem já é bastante trabalho, no calor vira castigo. Durante os preparativos ainda conseguimos encaixar uns passeios com Bernard e Teresa, o que tornou dias e noites lotados de atividades, incluindo um animado happy-hour com Bel e Bob a bordo do Bicho Vermelho. Quando não estávamos no supermercado carregando carrinhos e carrinhos de mantimentos, estávamos escalando as ruínas de algum forte antigo. A cidade antiga é muito interessante, rodeada por muralhas e muito bem preservada. Muitas praças, varandas. Os museus dão uma boa idéia do que foi viver por lá entre os séculos XVII e XVIII. Uma invasão atrás da outra. Ingleses, franceses, piratas, um assédio constante. Tem fortaleza pra tudo que é lado, muralhas, canhoes, passagens subterrâneas, calabouços, tudo. Até uma barreira submersa na entrada da baía foi construída para evitar a entrada de navios inimigos. Cartagena foi apelidada La Heroica por resistir (e muitas vezes sucumbir) a tantos ataques.

O casal Otondo se mostrou boa companhia desde o início, encarando sob calor massacrante a maratona supermercado-preparar barco-museus-fortes-igrejas-cidade antiga-restaurantes com galhardia. Também não é para menos. Bernard “o basco” Otondo foi criado num ambiente hostil, selvagem. Ainda menino em Bourdeaux recebeu seus primeiros ensinamentos sobre táticas de guerrilha urbana. Adolescente, dividia seu tempo entre as inúmeras vinícolas da região, embriagando-se com os melhores vinhos e participando ativamente da criação do famoso ETA. Adulto, membro intumescido da organização concebeu e participou de inúmeros atentados ao pudor. Para começar a entender tal personagem, sua periculosidade e artimanhas, basta citar que enquanto comandava as facções mais radicais do ETA veio ao Brasil e cooptou Senorita Teresa, née Montero, de tradicional e refinada família argentina radicada em São Paulo. Usando seu charme rude, o savoir faire, o joie de vivre, o parfum, o roquefort, o citroen, o champagne e o champignon conquistou irreversivelmente o coração de tão nobre donzela. Rapidamente casou-se e usufruindo da respeitosa e falsa imagem que o matrimonio concedera-lhe continuou a perpetrar atos da mais profunda vilania e crueldade.

Em visitas a finca da família Montero nos Pampas devorava em churrascos incontáveis arrobas de terneros recém abatidos. Com a experiência adquirida nas vinícolas da Franca dizimou os excelentes vinhos argentinos guardados por gerações na extensa adega dos Montero. Levou a penúria diversas famílias, depenando respeitáveis homens de negócio em noitadas de bridge regadas a pastis. Mas vamos voltar a nossa história, pois a deste basco é tão longa, pérfida e cheia de intrigas que merece seu próprio blog.

Pajé pronto, vamos reabastecer o tanque de diesel e somos impedidos pelo desfile de candidatas a Miss Colombia, as reinas de la beleza, que desfilaram em trajes de banho em barcos pela baía de Cartagena. Além disso, na saída da marina o leme apresentou-se muito duro. Um clássico. E lá vai o bonitinho aqui mergulhar naquela água imunda, e pior, sem conseguir resolver nada. Depois descobrimos que um excesso absurdo de cracas estava atrapalhando.
Saímos numa manha de sol e com previsão de ventos fracos e contrários rumo as Ilhas Rosario, distantes umas 20 milhas. A navegada foi super tranqüila e tivemos que negociar um pequeno zigzag entre os corais para chegar à ancoragem. Ficamos duas noites por lá e nos mandamos para as Ilhas San Bernardo (um santo basco). Aliás, aprendemos tanto sobre os bascos: os seres humanos originais, pré cro-magnon. Todas as línguas provem da língua basca. As ciências, as artes, a gastronomia, a filosofia, a cultura, o céu, o mar, a terra, tudo vem dos bascos. Desconfiamos que basco, em sua essência, significa humilde, despretensioso.


O arquipélago de S. Bernardo se revelou uma grata surpresa. Enquanto procurávamos um lugar abrigado para ancorar, zigzageando entre os corais (para variar), um sujeito em uma casa nos faz sinais para continuarmos numa certa direção. Como não conseguíssemos entender, ele e um amigo vieram de caiaque e nos guiaram por mais uma serie de zigzags apertados até um maravilhoso manguezal, super protegido e com a água bem clarinha. O lugar era a paz. Algumas casas de veraneio espalhadas pelo local não chegavam a comprometer o sossego. Os mergulhos nas proximidades só renderam dois caranguejos. A ilha Tintipan, onde estávamos, aparenta ser o refúgio dos abonados colombianos, com a mata bem preservada e pouquíssimas casas. Já em uma minúscula ilha vizinha, Islote, mais de mil pessoas aglomeram-se em casas construídas coladas umas as outras. Em sua grande maioria, famílias dos empregados das casas ricas de Tintipan e de um resort localizado numa outra ilha próxima. Assim como nas grandes cidades, por aqui também criou-se uma periferia...






Nossos dias e noites por lá foram muito tranqüilos, com deliciosas nadadas matinais e ao cair da noite. O tipo de lugar em que poderíamos ficar semanas, principalmente por ouvir as primorosas interpretações de Carmem por nosso tenor Basco. Mas como os pobres pássaros do mangue batiam em revoada a cada brado de Toreador achamos por bem levantar ancora antes de um irremediável desastre ambiental.
O trecho a seguir era o maior dessa viagem, umas 170 milhas. Seria o batismo da Teresa em uma navegada desta extensão e adequada como parte do objetivo da viagem do casal Otondo em experimentar um pouco da vida de cruzeiristas. E foi uma boa experiência: corrente contra, vento contra, alguns relâmpagos, alguma chuva (ainda bem que no turno do Bernard), troca de filtros do motor no meio da madrugada e uma boa ondulação ao chegarmos ao arquipélago Kuna Yala. Mas tudo correu muito bem e a mais nova tripulante do Pajé foi aprovada com louvor.

As ilhas por aqui são todas de cartão postal: areia branquinha, coqueiros a beira mar, aquela água cristalina. Conseguimos visitar uma comunidade Kuna e dar uns mergulhinhos em alguns bancos de corais. Pena que choveu muito (a pior chuva dos últimos 40 anos) até a despedida dos Otondo, também em grande estilo- traslado até o aeroporto em canoa Kuna, as 5:30 da manha e com chuva. Santa Teresa! Provavelmente um dos maiores prazeres que teve neste período foi ver o Bernard finalmente lavando louca e roupas.
Nós ficamos com aquela sensação de alguma coisa faltando, mas felizmente logo reencontramos o pessoal do Milo-One , o sol voltou a aparecer e os mergulhos renderam algumas lagostas e uma barracuda das grandes, devidamente transformada em moqueca e bons filés.O melhor é que daqui a pouquinho chega o cada vez mais banguela Alex para passar suas férias conosco, e junto com ele a Pil, Ricardo, Alan e Belle. Como diz o filhotudo, vamos fazer muita bagunça!