terça-feira, 11 de novembro de 2008

Colombia - novembro/2008

Sobrevivemos. Exaustos, depauperados, irritados e desanimados, mas sobrevivemos a seis semanas na marina. Conseguimos terminar tudo o que tínhamos nos proposto a fazer e mais um pouco. Só que custou, claro, muito mais tempo e dinheiro do que tínhamos nos proposto a gastar.

Mas há males que vem para o bem. Quando finalmente colocamos o barco na água, decidimos não voltar a Spanish Waters naquele mesmo dia, pois chegaríamos muito tarde e estávamos muito cansados. Naquela noite Curacao foi atingida pelo inicio do furacão Omar, que castigou a ilha por quatro dias, ainda como tempestade tropical e com ventos acima dos 45 nos. Isso nos reteve pela sexta semana na marina, mas foi melhor. O pessoal que estava em Spanish Waters nos contou que a coisa ficou feia por lá.

Enquanto estávamos na marina reencontramos o Derek e a Alison, do Kalida, conhecidos desde 2005 no Brasil e também ficamos amigos do Frank e Gretchen do Infinity.
E como amigos nunca são demais reencontramos em nossa volta a Spanish Waters os brasileiros Valdo e Claudia do Jasmin, o Marcelo do Gardian e o Elio do Crapun. E imediatamente iniciou-se uma serie de almoços, jantares e deliciosos bate papos.



Estava tudo muito bom, mas já estávamos bastante atrasados em nossa viagem para a Colombia para visitar Nina e seu infatigável e ardente marido Claudio quebra-pernas. Ela vem se recuperando de uma fratura , que segundo a versão oficial foi causada por uma queda no banheiro... Mas não nos deixemos enganar: a fratura deve ter sido causada por um rompante de paixão em tórrida noite de amor, quando os mais selvagens e primitivos impulsos sexuais os levaram a cometer incontáveis desatinos que culminaram no hospital. Jovens... Impetuosos, impulsivos, irrequietos nunca medem as conseqüências de sua volúpia, deixam-se levar pelo turbilhão de sensações, pela busca frenética dos prazeres carnais, pelos ímpetos hormonais, a sofreguidão domina sua mente, corpo e alma!

Precisávamos encontrar esses dois desajuizados e trazê-los de volta ao bom senso. Mostrar a eles que essa vida desvairada e os prazeres imediatistas causados pelo excesso de sexo, drogas e rock & roll poderiam acarretar sérias e danosas conseqüências ao seu desenvolvimento psicológico, social, moral, biológico, físico e químico. Urgia termos acesso imediato e irrestrito a adega de Don Claudio, sacrificaríamo-nos ingerindo o rubro veneno, esvaziando todas suas garrafas e afastando-os desse mal, amém!

Mas para tanto tínhamos que navegar 500 milhas. Resolvemos sair num final de tarde e dormir numa outra baia, para ir a Aruba na manha seguinte. Só que o vento estava tão fraquinho, o mar tão calminho e fazia tanto tempo que a gente não navegava que decidimos tocar direto pra Aruba, distante 70 milhas de Curacao. Assim que anoiteceu o vento aumentou e fomos reduzindo os panos para não chegarmos a noite. Mas ventava e tinha correnteza a favor e o Pajé continuava acelerando. Resultado: ficamos em árvore seca, ou seja, sem velas e o Pajé andava a mais de 4 nós. Mas deu certo e chegamos ao amanhecer.



Aruba



A imigração e alfândega foram as mais rápidas que vimos até agora. A ilha parece estar completamente voltada ao turismo, principalmente ao turista que chega nos grandes navios de cruzeiro. Uma infinidade de pequenas lojas de souvenirs, restaurantes, bares, cassinos, joalherias, etc. Mesmo assim, nos causou uma boa impressão e tivemos vontade de ficar mais tempo, reforçada por termos encontrado o pessoal do Eagles Nest e pelas incríveis facilidades financeiras. Lá parece que o aperto monetário –creditício não chegou: vejam a foto! Quis aproveitar a oportunidade, mas a Paula não deixou...

Saímos no dia seguinte com o Infinity rumo a Colombia de olho numa janela de bom tempo, (a navegação neste trecho é considerada a mais difícil do Caribe e entre as 5 piores no mundo). Uiiii...
Velejamos umas 260 milhas em dois dias com bom tempo, vento e corrente a favor, do jeitinho que a gente gosta. De vez em quando dá tudo certo, até um pequeno atum pescamos. Ancoramos em Gairaca, Cinco Baías, já em território colombiano. Uma baía linda, com poucos moradores e muito parecida com as baías de Paraty e Angra. Fomos nadando até a praia e assim que pusemos o pé na areia um cara super simpático que estava por lá com mulher e filha se aproximou, apresentou, nos deu boas-vindas e puxou papo. E logo depois o Reinaldo, um morador do local também se aproximou, ofereceu ajuda no que precisássemos e fez questão de nos mostrar sua casa. Obviamente ficamos encantados e já gostamos de cara do lugar e dos colombianos.
Quando fomos mergulhar então ficou melhor ainda. Lagostas, hmm...
Fizemos algumas caminhadas com o Frank e a Gretchen que se tornaram bons amigos. Acabamos ficando uma semana por lá, pois o tempo ficou ruim e tivemos que esperar para navegar o próximo trecho. Apesar da baía ser bem abrigada, as rajadas entravam fortes por todos os lados, virando botes, adernando os barcos e não deixando ninguém dormir tranqüilo.


Saímos com vento bem fraco e chuva e tivemos que dar uma motoradinha para chegar na próxima ancoragem, Punta Hermosa, ainda de dia. Nesse trecho cruzamos a foz do rio Madalena, onde a corrente contrária a maré cria ondas curtas, cavadas e desencontradas, tornando a navegação muito desconfortável . Como passamos sem vento o mar estava calmo, mas deu pra perceber o potencial problema do local.









Dormimos chacoalhando debaixo de uma chuva torrencial, raios, trovoes e mosquitos. Saímos de manhazinha rebocando o Infinity, que estava com defeito no motor. Chovia, chovia e chovia. Zero de vento. Chegamos a Cartagena no meio da tarde e ancoramos próximos ao Club Nautico, o ponto de apoio dos cruzeiristas por lá.
Fizemos um rápido reconhecimento do local, conhecemos o Bob e a Isabel, brasileiros do Bicho Vermelho que estão há algum tempo por lá e nos deram boas dicas.
Arrumamos o Pajé rapidamente e nos mandamos pra Bogotá. Aqui chegando fomos recebidos com todos os mimos e paparicos. Imediatamente nos atiramos à premente tarefa de esvaziar a adega do Claudio. O problema é que ela é aparentemente inesgotável e, além de não termos conseguido afastar o temerário casal dos seus já relatados delitos, fomos aliciados e passamos longas horas nos dedicando a partidas de tranca, nosso mais novo vício.

domingo, 12 de outubro de 2008

Bonaire & Curacao - setembro/2008

Bonaire

A ancoragem em Bonaire é proibida. Os barcos são obrigados a permanecer em poitas, US$ 10 por dia. Tudo para preservar os corais e a paisagem submarina. A ilha gira em torno do turismo e do mergulho. Existem inúmeros pontos de mergulho catalogados e grande parte pode ser atingida pela orla. O pessoal vem de carro, estaciona, coloca o equipamento e tchibum. A água é incrivelmente azul, transparente e despoluída, mesmo em frente ao cais da cidade mergulhávamos com muitos peixes. A profundidade cresce rapidamente, pertíssimo da beira mar já está em 40 metros.

Além dos mergulhos pouco mais há para se ver ou fazer. Como o vento não ajudou não velejamos de kite nem wind. E o tal vento raro de sudoeste continuou a nos assombrar. E dessa vez veio com um swell, ficamos balançando vendo as ondas quebrarem na calçada poucos metros em nossa popa. Muitos relâmpagos. Desde Aves vínhamos assistindo tremendos espetáculos noturnos, ainda bem que muito distantes.

Um dia passa por nós um cara num bote, olha nosso gerador eólico com uma das pás faltando (quebrou no ventão em Aves) e diz que tem um jogo de pás novo, é só passarmos no seu barco e apanhar. No dia seguinte fui lá e o Glen tinha de fato as pás e nos deu. Retribuímos com uma garrafa de cachaça, o melhor que nos ocorreu. Um jogo de pás custa no mínimo US$ 100. A comunidade dos cruzeiristas é muito unida e todos fazem questão de se ajudar. Nós mesmos já havíamos dado coisas para pessoas que mal conhecíamos. As pessoas se comportam em geral de uma maneira muito diferente do que na cidade. São mais simpáticas, desinteressadas, dispõem de mais tempo e vontade para ajudar e fazer amizades.



Curacao


Depois de uma semana em Bonaire motoramos para Curaçao. Ancoramos em Spanish Waters, uma grande baia cheia de reentrâncias e canais. A entrada é muito estreita, provavelmente menos de 50 metros. A gente passa pertinho dos corais, navega por um canal sinuoso e só aí entra na baia. Muito agradável e protegida. As margens estão bastante tomadas por grandes casas e marinas. As ancoragens são delimitadas, não se pode ancorar em qualquer lugar. A água dentro da baía é turva, esverdeada. Um dos barcos fornece internet wifi por US$ 10/semana. Em uma das marinas o microônibus de um supermercado leva e traz gratuitamente os cruzeiristas para as compras. Os supermercados são muito bem abastecidos com produtos europeus, americanos e latino-americanos. Vinhos chilenos saem por menos da metade do preço no Brasil.

Curacao deve este nome aos antigos navegadores portugueses, que aqui aportavam em busca de alimentos e descanso para combaterem o escorbuto e outras doenças típicas. Aqui se curavam e assim a denominaram Ilha da Curação. Com o domínio holandês virou Curacao. Hoje com mais de 150 mil habitantes tem uma grande refinaria de petróleo e montes de KFC, Pizza Hut, McDonald`s.

A língua local é o papiamento, uma mistura de português, holandês, espanhol (hoje em dia também tem palavras em inglês, como todas as outras línguas do mundo). Nas escolas ensina-se - mas nem sempre se aprende - o holandês, inglês, espanhol e papiamento. O papiamento é o máximo. Consegue-se entender um monte de coisas. Nos divertimos muito lendo placas e manchetes de jornais.

Junto com o Milo One alugamos um carro e demos uma volta pela ilha.
Poucas praias, muito bonitas. O centro da cidade é muito bem cuidado, com todos os prédios baixos e pintados em cores vivas margeando o canal de acesso a baía de Willemstad, onde está a tal refinaria. Existem duas pontes sobre esse canal. Uma moderna, muito alta e uma antiga – século 19, que é flutuante e tem motores em uma das extremidades e dobradiças na outra. Quando alguma embarcação quer passar um dos lados da ponte se move dando acesso ao canal. O Elio foi muito gentil e filmou o Pajé passando por aqui.




Poucos dias após nossa chegada lá vem o Elio e seu Crapun novamente. Digo novamente pois a coisa já tá virando brincadeira. Por diversas vezes o Elio chega às mesmas ancoragens onde estamos sem termos combinado nada. E nessas ocasiões, claro, vamos recebê-lo alegremente e ajudamos na ancoragem, indicando onde está a imigração, supermercado e/ou convidando-o para jantar. E aí ficamos brincando que viramos os batedores do Crapun, comitiva de boas vindas, etc.



Tivemos o prazer de conhecer os brasileiros Iris e Alexandre, do veleiro Ubatuba. Estão velejando desde os EUA e ficarão em Curacao por um tempo antes de seguir viagem. Simpaticíssimos, logo estávamos todos entrosados e curtindo passeios e refeições pela ilha.

Um barato o Elio e o Alexandre. Dois excelentes contadores de causos. Elio com suas histórias de físico, professor e motociclista. Alexandre com suas histórias de caçador e pescador. Sabiam que se algum dia você, sua mulher, amigo ou cachorro for apanhado por uma sucuri basta passar suas unhas no sentido contrário das “escamas” da cobra que ela sai correndo? Estou esperando minha sogra aparecer por aqui para fazer o teste. Tomara que ela me solte logo!

Como estava indo tudo muito bem resolvemos complicar um pouco e pintar o fundo do barco. Comparamos os preços com as marinas do Panamá e Colômbia e decidimos por Curacao. Combinamos a retirada do barco numa segunda-feira cedo e que o pessoal da marina daria uma lixada no fundo e nós faríamos a pintura. Bom, nos envolvemos num drama que vai completar 4 semanas. Acabamos fazendo um hydroblast (jatos de água em altíssima pressão) e retiramos TODA a pintura do Pajé. O costado agora está com o alumínio aparente, modelito 2009. Só que para chegar nesse ponto foi o sofrimento... Já ouviram falar de inferno brasileiro? Pois é, o inferno agora tá globalizado.



A solidariedade da Iris, Alexandre e Elio nessa fase atribulada foi inestimável. Fomos a uma enorme caverna cheia de morcegos, estalactites e estalagmites. Mergulhamos num naufrágio de um pequeno rebocador e saboreamos uma feijoada no cockpit do Ubatuba.

Outra agradável ajuda veio com a visita do Bernard e do Emílio que também nos animaram, distraíram, alimentaram e levaram pra passear. Ficamos devendo uma estadia mais acolhedora aos dois, com o barco na água de preferência.







Se sobrevivermos, vamos para uma rápida escala em Aruba e depois Colômbia, onde Mamita e Papito nos esperam. Nina recuperando-se de uma fratura no fêmur ocorrida em caliente noite de paixão e Cláudio abastecendo sua adega para melhor receber a combalida e sedenta tripulação do Pajé.