terça-feira, 17 de julho de 2012

Carta de Cartagena - jul/12



Cartagena, 14 de julho de 2012

Meu caro amigo me perdoe, por favor, que eu não lhe faço uma visita, mas como agora apareceu um portador...
Estamos a quase um mês na Colômbia, alternando ancoragens entre Cartagena e as Ilhas Rosario, meras 15 milhas a sul/sudoeste. A navegada é bem tranqüila e rápida, então ficamos na cidade ---
Oops, fui interrompido, mas já voltei: estava aqui escrevendo, quase 8 da noite,  e aparece o Bryan, de um veleiro vizinho, pedindo ajuda porque havia avistado um veleiro que tinha se soltado da poita, estava a deriva na baía e acabaria encalhando (isso se não batesse em alguém antes, é o maior movimento aqui). Pulei pro bote dele sem camiseta, chinelo, sem eira nem beira, a Paula só nos passou uma lanterna e lá fomos nós.  Chegamos ao fugitivo, fizemos as amarrações e começamos a rebocar, mas barco era muito pesado e o motor do bote do Bryan, sofrendo com o esforço, parou! Agora estávamos os dois, no escuro, só de shorts, num veleiro estranho, a deriva num porto movimentado e indo pras pedras! Que que eu to fazendo aqui?!? Vamos tentar ligar o motor do barco! O cockpit era uma verdadeira zona, peças pra todo lado, baldes e um mastro amarrado no guarda mancebo. Demorou até acharmos onde se escondia o painel (atrás de uma placa de compensado e de um balde com um gerador eólico dentro), por sorte a chave estava lá e o motor pegou. Só que não conseguíamos fazer o motor engrenar, a alavanca não se movia e receávamos quebrar a peça. Finalmente descobrimos como a tramóia toda funcionava e conseguimos por o barco em movimento, bem na hora, pois vinha entrando pelo canal um mega navio porta container. A estas alturas já estávamos bem longinho e nossa situação não havia necessariamente melhorado: dois desconhecidos, sem autorização nem identificação, num barco desconhecido de um dono também desconhecido, motorando sem luzes de navegação num movimentado porto estrangeiro.  Que que eu to fazendo aqui mesmo? Bom, o próximo passo era simples: decidir o que faríamos com o barco...
Pensamos em levar pra marina, mas atracar um barco desconhecido (sem saber onde estão cabos, defensas etc) sem autorização do dono ou da marina, no escuro, não pareceu uma boa idéia.  Resolvemos ancorar. Mas, claro, o guincho do cara estava emperrado! Ferramentas aonde? Conseguimos achar um pedaço de ferro no meio da bagunça e depois de alguns “carinhos” bem dados o bicho destravou e conseguimos ancorar próximos de onde o barco estava previamente apoitado. Mas aí não conseguíamos desligar o motor. Não tinha botão, afogador, nada, necas de pitibiribas. Mas achamos uma gaiuta aberta e desligado o motor foi.
E de lá saímos, dois intrépidos, bem sucedidos e anônimos resgatadores. O Bryan até brincou: nem somos amigos ainda mas já temos historias pra contar... E estou contando aqui, em primeira mao, quentinha saída do forno agora, mais esta lorota!
Estamos aqui imaginando o que vai passar na cabeça do dono do barco ao voltar de sua noitada. Ao invés de encontrar seu barco amarrado onde o deixou, vai encontrá-lo ancorado algumas dezenas de metros além...
 ---Mas onde eu estava mesmo? Ah, ficamos na cidade pra resolver coisas e quando podemos vamos para Rosario curtir um pouco e limpar o fundo do barco, já que bastam poucos dias nas águas de Cartagena para o casco ser recoberto por cracas.
Calor demais, em geral ficamos no barco até o meio-dia, uma hora e depois nos refugiamos em algum lugar com ar condicionado. Por isso o centro comercial virou passeio predileto (e eu odeio centros comerciais, mas agora é uma questão de sobrevivência).
Os preparativos pra deixar o Pajé sozinho tomam muito tempo: lavar e guardar todas as almofadas externas, descongelar e limpar freezer e geladeira, encerar peças inox, limpar todo o interior e passar pano úmido com vinagre para evitar mofo, trocar óleo e filtros dos motores e gerador, limpar motor de popa, guardar cabos, espalhar inseticida pelo barco todo, cobrir moveis e equipamentos, acondicionar roupas de cama e mesa em embalagens a vácuo etc etc
Mas tudo vale à pena se a alma não é pequena! Daqui a pouquinho vamos pro Brasil encontrar o filhotudo, famílias e amigos. Óbvio e felizmente, deliciosas pizzas, churrascadas, cervejas e caipirinhas nos aguardam. 




































quinta-feira, 7 de junho de 2012

Kuna Yala - jun/12

Dias de preguiça! Temos feito muito nada ultimamente, uma delícia. O vento se foi em abril e o mar está tranquilíssimo, muito sol, calor e água cristalina. Continuamos deslumbrados com a beleza daqui, com o por do sol, as estrelas e a lua cheia.

Recebemos a visita de Madame Adriana e Luis que sofreram bastante com o calor, a ausência de internet e contatos com a civilização. Como recompensa Adriana refrescou-se com proseccos e cavas e Luis com alguns vinhos da Toscana, seus preferidos, enquanto observavam estrelas do mar, peixes e arraias nadando ao redor.

Com a ausência de vento a água esta ainda mais transparente e do convés conseguimos constantemente ver o fundo e o que está acontecendo. Um dia tivemos um imenso cardume de sardinhas curtindo a sombra do barco. Outro dia havia dois imensos pargos passeando pra lá e pra cá. Deu certo trabalho mas consegui trazer um deles pra mestre cuca aprontar mais uma das suas. Comemos assado, grelhado, ensopado, moqueca. Conseguimos terminar com ele ontem, ou seja, estou liberado pra mergulhar e tentar espetar mais algum nos próximos dias.

Além dos peixes e arraias o mar nos trouxe outra surpresa – um cachorro! É, sabemos, difícil acreditar mas é verdade. Bem cedinho, lá pelas 10 (ahhh como é bom uma vida preguiçosa!) acordamos com uns barulhos estranhos no convés. Na investigação demos de cara com um vira-lata amedrontado que tentou de tudo pra passar despercebido. Descoberto, o tripulante clandestino foi devolvido a sua ilha de origem.

O mar também nos traz diariamente a visita da Mayelis, 2 anos de idade e que mora na ilha aqui ao lado. Ela vem sempre sorrindo, cheia de tchauzinhos e beijinhos buscar suas balinhas e doces. Os pais e avós disseram que ela passa o dia esperando o momento de nos visitar e eu disse que a Paula passa o dia esperando a visita dela...

Este período preguiçoso nos leva obrigatoriamente a observar, refletir (podem rir...) e pior, escrever! Estamos ancorados entre algumas ilhas e noite dessas, em nosso plantao na proa olhando pro céu, notamos as rotinas ao nosso redor. A ilha mais a nordeste, Banedup, tem um gerador, bar, turistas e musica. Os kunas de lá sao todos fashion, cortes de cabelo, shorts, camisetas, acessórios moderninhos e curtem escutar regaton a todo volume noite adentro com as luzes todas acesas.
A nosso sudoeste, bem pertinho, Isla Perro, de onde a Mayelis vem nos visitar. Enquanto a festa rola em Banedup a Isla Perro já está imersa no mais profundo silencio e escuridao, com suas familias aconchegadas em suas cabanas.
E aqui bem no meinho, nós! Quanta oportunidade pra filosofar... Banedup querendo ser Sao Paulo, Sao Paulo buscando o sossego da Isla Perro e vai se saber o que o pessoal da Isla Perro quer.... Poupa-los-emos das nossas reflexoes, mas dá pra imaginar né? Muitas vezes quando estamos nas ilhas brincamos que se alguem nos visse diria que os moradores somos nós, de biquini e calçao e os turistas sao os kunas com cabelos transados, celulares e vestidos na moda... Ninguem tá nunca satisfeito, nao é mesmo?

Nosso bote inflável morreu. O danado está tão velho e furado que não tem mais salvação. Dá tanto trabalho encher que nem temos usado muito. As demais manutenções estamos fazendo a passo de tartaruga. Muito bom não ter pressa. Agora estou enrolando para ir ao tope do mastro (23 metros de altura) fixar as luzes de navegação. Já sei que vai ser um trabalho ingrato daqueles, ficar balançando, sol na moleira, uma mão pra se segurar e a outra para manejar furadeira, chave de fenda e aquele medo de deixar cair algo... Tentei convencer a Paula que seria uma boa experiência se ela fizesse isso pois eu me tornaria completamente obsoleto e desnecessário aqui no barco (afinal minha outra única responsabilidade digna de nota é lavar louça e ela poderia comprar uma máquina e livrar-se de mim definitivamente) mas não teve jeito. Ela tem andado tão entretida com a leitura de Drácula, Frankenstein, nadar, mergulhar com as arraias, fotografar o trânsito de Vênus frente ao sol (viram?) etc que nem me ouve.

Em poucos dias zarparemos para Cartagena, buscar o novo bote e pintar o fundo do barco. Nesse meio tempo temos as férias do gurizão, o resto ainda não sabemos. Mas já decidimos que voltaremos pra cá assim que possível!